Ana do Abandono
A fome de liberdade não se mata com palavras, e sim com amor!
Quando vi aquela cena, fiquei até feliz: ela estava bonita, bem vestida e com boa memória. No áudio, lembrou da amizade do pai com o amigo para quem mandava a mensagem.
Ana ficou sozinha depois que seus pais morreram. E ela, que sempre foi tão frágil e conviveu com problemas psiquiátricos, deu o grande azar de não partir antes dos pais.
A vida é uma questão de sorte. E a sorte que lhe restou foi a família por parte da mãe ser rica a ponto de poder pagar por um “depósito de abandono” , lugar que também é conhecido pelo nome “casa de repouso”.
Não vou dizer aqui o que penso dos humanos que jogam seus parentes nesses depósitos, que passaram a ser um bom negócio após o fim dos manicômios.
Mas, ver essa menina tão solitária, acaba com o pouco que me resta de esperança na Humanidade, que já carrega o peso de ter criado o Nazismo e crucificado Jesus.
No aconchego dos lares dos parentes, não há espaço para Ana. O dinheiro gasto no depósito poderia ser pago a uma cuidadora, mas a fragilidade de Ana representa um estorvo que merece distância.
Resta a esperança de que a tenham levado seus discos do Queen, para que ela possa ouvir Freddie Mercury, que sempre foi o seu amor platônico.
E também bons livros, já que Ana é lida, e domina a língua inglesa. Na literatura, talvez ela encontre a felicidade que lhe é privada na vida real.
Ana viveu toda a sua infância fora da realidade, e isso piorou muito o que poderia ser a sua vida. A vida é um campo minado, onde cada passo pode ser fatal.
A verdade é que Ana cumpre prisão perpétua sem ter cometido nenhum crime. Sem advogado, defensoria pública, visita íntima e indulto de Natal.
Ana passará todos seus dias sem luz, sem esperança, sem carinho. O pai famoso e importante, se estivesse vivo, talvez lhe dissesse: “aguenta firme, Aninha”.
A fome de liberdade não se mata com palavras, e sim com amor!
P.S.: convivi com Ana desde criança, e fui amigo dos seus pais. Este texto me dói, mas muitos amigos do seu pai irão ler e, sabendo a realidade, se sentirão como eu: inútil por nada poder fazer por Ana.



